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O favas contadas

03
Fev14

A difícil descoberta de que há seis mortes por averiguar

Seis jovens mortos na praia do Meco. A polícia e o ministério público ouviram um zunzum qualquer. Nos gabinetes alguém chegou com a novidade, mas os chefes de repartição continuaram pensativos a mexer o seu café ou a tentar encontrar o termo adequado, com cinco letras, para os respectivos quadradinhos das palavras cruzadas. Em casa, ao jantar, as mulheres diziam qualquer coisa a esse respeito, mas morre tanta gente de tanta coisa, que os agentes da autoridade já pouca importância dão à morte. Só se morre quando se está vivo.

 

As televisões e os onlines viraram-se para as praxes. É o que traz assistência. Mortos e afogados foi chão que deu uvas. As praxes é que excitam, agitam, põem as almas a vibrar. Os duxes, os caloiros, os baldes de sujidade, os insultos, as humilhações, coisas que o espectador sabe como é porque já passou por elas todinhas. A vida é mesmo isto, hoje sou eu, amanhã és tu, é a sina de cada um. Perigo de morte? Ora essa, ninguém cá fica para semente!

 

As mães choraram os filhos perdidos na flor da idade. O que escapou para dizer como foi, passou a sofrer de um mal qualquer, que os especialistas em psicologias foram buscar à prateleira das doenças feitas por medida. Os agentes de pesquisas e investigações estão agora a escarafunchar nos dentes com o palito, num esforço derradeiro para desalojar o resto teimoso de bife que tanto incomoda. Mães que choram, flores enterradas na areia, os duxes apreensivos com receio de dispersão das ovelhas. Os investigadores passam a língua pela frincha dos dentes, o pedaço de bife não sai nem por nada.

 

As televisões e os onlines continuam a empraxar os senhores telespectadores. Os portugueses deixam-se empraxar até chegar com o dedo. São-lhes mostradas coisas do fim do mundo, ficam a saber coisas do fim do mundo. As mães limpam a última lágrima, incrédulas de tanta sujidade que as suas filhas, sempre tão asseadas, permitem que lhe despejem pela cabeça abaixo. Os reitores das universidades, os sociólogos, os psicólogos, todos dizem coisas, muitas, longas e sábias coisas, que é para encher o programa. Os investigadores policiais, depois do farto jantar, desapertam o botão das calças, instalam-se no sofá cansados da refeição. O bocado de bife continua entre os dentes.

 

Caramba, um ex-PGR a dizer que "as investigações para casos destes devem ser feitas prontamente, tanto na recolha de indícios como de depoimentos“! Os agentes, esbaforidos do esforço com o palito nos dentes, sentem um baque no peito, as mães dos filhos perdidos no mar esboçam um sorriso amarelo, a testemunha sobrevivente sente que o seu mal, do qual já tinha esquecido o nome, precisa de nova dose do seu psicologias. As televisões e os onlines já não sabem onde ir buscar mais histórias mirabolantes de praxes para amarrar o senhor telespectador. Uma luzinha ténue nos confins do buraco negro, que é o que são a investigação policial e a justiça em Portugal, começa a desenhar-se na escuridão. A nossa senhora de fátima e todos os santos no céu a dançar à volta da virgem maria falaram pela boca de um ex-PGR. Já não é só o incómodo de levantar o braço para tirar um pedaço de bife dos dentes, agora muito provavelmente terão também de levantar o seu ilustre traseiro do sofá. A vida é um único sofrimento.

 

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